IoT: entre conexão e vulnerabilidade

Quando falamos sobre o potencial da Internet of Things no Brasil diante da crise climática, estamos discutindo como o conhecimento técnico pode ou não se alinhar a projetos de futuro que sejam socialmente justos e ecologicamente viáveis.

O Brasil ocupa uma posição paradoxal neste contexto. De um lado, possui competências relevantes em IoT aplicadas à agricultura, energia e monitoramento ambiental. De outro, enfrenta infraestruturas urbanas e rurais historicamente desiguais, muitas vezes incapazes de responder a eventos extremos — enchentes, secas prolongadas, colapsos de mobilidade e saneamento. Nesse cenário, a IoT surge frequentemente como promessa de eficiência: sensores que monitoram rios, redes inteligentes de energia e sistemas de alerta em tempo real.

Mas há um risco silencioso: reduzir a crise climática a um problema de gestão de dados.

A tecnologia, por si só, não resolve aquilo que é estrutural. Sem um olhar crítico, a expansão da IoT pode inclusive reproduzir desigualdades, concentrando inteligência em áreas já privilegiadas, enquanto territórios vulneráveis seguem desconectados e monitorados sem autonomia sobre seus próprios dados.

É nesse ponto que a noção de Green IoT precisa ser tensionada. Tornar a IoT “verde” não é apenas reduzir consumo energético ou otimizar recursos. É perguntar: a serviço de quem essa inteligência opera? quais territórios ela prioriza? que formas de vida ela sustenta e quais invisibiliza?

Para que o conhecimento de IoT no Brasil contribua de fato com a agenda climática, ele precisa migrar de uma lógica de eficiência para uma lógica de regeneração territorial. Isso implica pensar infraestruturas não apenas como redes técnicas, mas como ecossistemas vivos, onde dados dialogam com saberes locais, práticas comunitárias e dinâmicas ambientais.

Se quisermos avançar, acredito que seja necessário explicitar diretrizes regenerativas que orientem essa inteligência em quatro dimensões integradas: coisas, dados, sistemas e pessoas.

Nas coisas, trata-se de projetar dispositivos acessíveis, duráveis e contextualizados — capazes de operar em cenários de infraestrutura frágil, com baixo custo e manutenção comunitária. Nos dados, o desafio é garantir governança, transparência e pertencimento — dados que não apenas informam, mas fortalecem a autonomia dos territórios. Nos sistemas, é preciso desenhar arquiteturas abertas, interoperáveis e resilientes, que dialoguem com realidades diversas, inclusive onde a conectividade é limitada. E nas pessoas, talvez esteja a camada mais crítica: formar sujeitos capazes de compreender, adaptar e reinventar essas tecnologias a partir de suas próprias culturas e necessidades.

É aqui que a Permacultura, especialmente em sua dimensão urbana , oferece uma inflexão potente. Ao propor o desenho de sistemas baseados em princípios como cuidado com a terra, cuidado com as pessoas e partilha justa, a permacultura desloca o centro da inovação: da tecnologia para a relação.

Integrar IoT e permacultura não significa “tecnologizar” a natureza, mas sim sensibilizar a tecnologia. Ou seja,  sensores podem monitorar umidade do solo, mas são os princípios permaculturais que orientam como, onde e por quê intervir. Ou também plataformas podem mapear fluxos urbanos, mas é a leitura cultural do território que revela quais fluxos importam para a vida coletiva.

Nesse sentido, a cultura deixa de ser um elemento periférico e passa a ser infraestrutura invisível da inteligência: ao sustentar imaginários, práticas e formas de pertencimento capazes de dar sentido ao uso da tecnologia. Ou seja, ela pode se tornar uma ferramenta de reconexão entre pessoas, lugares e ecossistemas.  E desta maneira, a IoT não corre o risco de ser apenas uma camada técnica sobre um território em colapso.

Essa abordagem abre caminhos concretos quando atravessada por diretrizes regenerativas, como:

Na educação, isso significa ir além da formação técnica e investir na construção de ambientes de aprendizagem diversos, inclusivos e territorializados, onde estudantes não apenas aprendem a usar dispositivos, mas co-criam soluções a partir de seus contextos. A IoT, nesse caso, pode ser utilizada em projetos que conectam escola e território — monitoramento de qualidade da água em comunidades, hortas inteligentes em escolas públicas, mapeamento de ilhas de calor em periferias — promovendo simultaneamente letramento tecnológico e consciência socioambiental.

Nos pequenos negócios, especialmente aqueles inseridos em economias locais, a lógica regenerativa implica desenvolver aplicações de IoT simples, acessíveis e adaptáveis, que respondam a desafios reais: controle de consumo energético, gestão de estoque com baixo custo, monitoramento de produção artesanal ou agrícola. Aqui, o valor não está na sofisticação tecnológica, mas na capacidade de fortalecer a autonomia econômica e a resiliência local, evitando dependência de soluções caras e centralizadas.

Já nas redes e coletivos, a IoT pode se tornar uma infraestrutura de inteligência compartilhada. Sensores comunitários, plataformas abertas de dados e sistemas colaborativos permitem monitoramento ambiental participativo, gestão coletiva de recursos e articulação entre diferentes atores do território. Quando orientadas por princípios regenerativos, essas redes não apenas coletam dados — elas produzem confiança, cooperação e capacidade de ação coletiva.

Em todos esses contextos, o elo entre coisas, dados, sistemas e pessoas não são automáticos, eles precisam ser intencionalmente desenhados, com uma base educacional crítica.

A provocação, então, é a seguinte: o papel da educação é formar usuários de tecnologia ou formar sujeitos capazes de questionar, reconfigurar e ressignificar o próprio sentido da tecnologia? Antes de ensinar a programar sensores, não seria fundamental desenvolver a capacidade de ler o território, escutar comunidades e compreender interdependências ecológicas e sociais? E mais: é possível falar em inovação tecnológica sem antes consolidar práticas de inteligência coletiva e tecnologias sociais que orientem seu uso?

Neste sentido, o setor de educação não é responsável apenas por uma etapa preparatória, mas, o campo estratégico onde se define a qualidade da inteligência que será implementada. Sem esse investimento, corremos o risco de expandir dispositivos sem expandir consciência — e, com isso, aprofundar as mesmas vulnerabilidades que buscamos resolver.

Portanto, acredito que o desafio não seja apenas desenvolver uma “Internet das Coisas”, mas sim uma “inteligência das relações” — onde dispositivos, dados, sistemas e pessoas operem em conjunto para ampliar a capacidade de adaptação dos territórios frente às crises do nosso tempo. E para isso exige menos deslumbramento tecnológico e mais imaginação política e ecológica que podem definir que mundo queremos sustentar com o desenvolvimento da Inteligência das Coisas (IoT).

Assista:

 

Tecnologias que Regeneram: por que medir impacto é parte do próprio ato de inovar